Assunto: ✏ Paulo Santoro — síntese de ideias

Paulo Santoro está chegando com livros, teatro e seu novo site.
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Se eu luto contra meu Ego, e venço — deveria ficar envaidecido?
Capa do livro O lobo.

RESENHA — O Lobo

Num mundo de cada vez maior complexidade, torna-se mais encantadora a presença deste novo romance nas vitrines: o mais que simples título O lobo, de um autor com o nome mais que comum de Joseph Smith — uma espécie de José da Silva em inglês.

A Editora Objetiva, por meio de seu selo Alfaguara, está de parabéns por todo o trabalho de produção deste volume. A tradução de Adalgisa Campos da Silva é excelente. A edição arrisca inserindo figuras em um título adulto, mas é muito bem-sucedida com suas ilustrações sóbrias e pertinentes.

Encontrei este livro no meu passeio pela Bienal do Livro de São Paulo, em 2012. Devo ter compulsado dezenas de livros de ficção e este foi o único que comprei. É difícil encontrar aquilo que foge do ramerrão ou das invenções inócuas. Mas O lobo já atrai pelo primeiro parágrafo:

Lá de dentro da floresta, à minha frente, eu posso ouvir um rangido de patas na neve. Tudo o mais está quieto. Estou em pé, com a cabeça envolta na nuvem formada pelo meu bafo no ar frio, imóvel, só escutando, sem enxergar nada a não ser o chão branco e os troncos escuros e pontiagudos das árvores. Farejo a fera. Seu cheiro, marcante e intenso, sobe dos odores mais leves do mato e me seduz, me atrai até ela. A fera não pode estar longe, mas as árvores aqui crescem em tanta densidade que não consigo vê-la, e então avanço pisando de leve por entre as árvores, pulando por cima de galhos caídos, tão de mansinho que só um camundongo dormindo na toca embaixo de onde minhas patas encostam poderia abrir um olho para logo fechá-lo enquanto passo.

Sem nenhuma apresentação, somos lançados direto à ação, e vamos aos poucos deduzindo quem é esse narrador, onde ele está, quais os seus problemas. O ritmo das frases é fascinante, e conduz a uma leitura intensa e imaginativa, na qual cada palavra é útil para nos revelar uma pista do seu universo.

Uma grande conquista desse romance é a forma como o autor resolveu o problema de expressar as relações e as comunicações entre os animais. Com sua escritura de grande precisão e técnica, elaborou de forma convincente o canal do olhar: pelo olhar os personagens revelam — ou tentam ocultar — suas intenções, seus medos, seus desejos. Com esse artifício, a história sai do plano do mero relato e chega a um patamar carregado de dramaticidade.

Sou o lobo, o ceifador de vidas: o predador. Ataco de olhos abertos e vejo a morte luminosa e feroz pular no olhar da minha presa. Sou o lobo, a sombra que traz a luz da morte, a vida que concede a liberdade aos rebanhos temerosos e lutadores e que põe fim ao sofrimento dos fracos.

Como é de se esperar, vemos na vida e nas peripécias do lobo e dos personagens à sua volta muitas das situações que envolvem nossas próprias vidas. Com isso, temos uma leitura ao mesmo tempo emocionante e pessoalmente valiosa.

Prefiro me refrear nos comentários para não fazer revelações que podem estragar o prazer de quem for ler. Recomendo o livro a todos os que gostam de boa literatura.
O documentário sobre a realização de um filme hipotético é um making-if.
REFLEXÃO
Tempo e Memória

Quando pequeno, surpreendiam-me os relatos de pais e tios mais velhos sobre um mundo sem televisão e produtos industrializados. Era na minha percepção um mundo em sépia, lento, esquisito e profundamente remoto: “trinta anos atrás” tinha uma semelhança curiosa com “há um milhão de anos”.

Hoje a molecada não entende o que é um vinil e imagina nossa irrestrita infelicidade por termos crescido sem celular e internet. Mas não é o que sentimos. Nossa adolescência também era movimentada e intrigante, vivíamos no tempo mais moderno que já havia existido.

O engraçado de nossas lembranças é que elas não são desbotadas ou em preto e branco como as fotografias que guardamos das mesmas épocas. Podem ser confusas, curtas, quase esquecidas, mas mesmo aquela única imagem distante ainda preservada na memória nós a enxergamos com o mesmo brilho que os fatos presentes nos dão neste exato segundo.

Assim, temos certeza de que “há trinta anos” faz só um instante. Aquela bolinha de gude que acertei com força no grandão malvado da minha rua voou agora há pouco, eu já era formado, casado e órfão de pai.

Envelhecemos por acúmulo de experiência e tudo aquilo que vivemos se sedimenta no Homem, que em seu presente constante tenta, com todo o otimismo necessário para a existência, agregar à sua vida também aquela carga de sonhos, imagens do futuro que ele tem a expectativa de fazer entrar para seu depósito de recordações.
O Autor
Síntese das Ideias

Em seus textos, Paulo Santoro procura fazer uma síntese das grandes ideias que movem o ser humano. Foca no desenvolvimento de personagens únicas, mas que refletem os desesperos — e as esperanças — guardados dentro de cada um de nós.

Formado em Letras pela USP, é escritor e criador de jogos. Sua estreia no Teatro deu-se em 2004 com a peça O canto de Gregório, dirigida por Antunes Filho.
Depoimento

Há algo de elegante na linguagem de Paulo Santoro, uma elegância objetiva como a de Kafka, na qual o feroz aparece sem que a gente se suje. No entanto, de repente estamos com os pés enlameados.

Silvia Gomez, dramaturga
Novo site

Em breve será lançado o novo site de Paulo Santoro, construído do zero por um pessoal de primeira linha! Nele virá o novíssimo blog, informações sobre eventos, textos antigos e inéditos e muito mais.
Novo livro

O livro A TEMPERATURA E A MATEMÁTICA DOS SONHOS (Ciência Fictícia) será lançado em breve. Leia as primeiras informações e bastidores na próxima newsletter!

LINHA DIRETA COM O AUTOR

Paulo Santoro
www.paulosantoro.com
santoro.paulo@gmail.com
(11) 9-8848-2002

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