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Boa
tarde, amigos!
Esta
newsletter atrasou alguns meses
porque fiz uma viagem longa e também
tive alguns problemas de saúde.
Felizmente agora podemos voltar à
programação normal. Depois de alguns
comentários breves que aponto a
seguir, quero mostrar um texto de
2009, que escrevi sob a comoção de um
assassinato bárbaro.
***
Eu li a
Bíblia cristã, mas nunca li o
Alcorão, a não ser por alguns
trechos. Portanto não posso fazer uma
grande comparação. Muitos têm alegado
que o Alcorão apresenta forte
incitação à violência contra os
infiéis (ou seja, aqueles que não
compartilham da fé específica pregada
pelo livro), mas temos que admitir
que nosso Velho Testamento e nossa
história também não são exemplos
perfeitos de amor e paz.
Seria até bom
se o problema do terrorismo se
baseasse em um debate religioso. Não
é o caso. O problema é essencialmente
político e econômico. Não precisa de
nenhuma teoria da conspiração para
alegar os múltiplos interesses por
trás desses eventos. A paz numa
civilização complexa demanda tempo.
Felizmente já existe um motor potente
trabalhando nessa direção: a
indignação em massa do ser
humano.
***
Tres
visiones del Teatro contemporáneo de
Brasil
No
link abaixo você pode ver o vídeo
produzido pela Embaixada do Brasil em
Madri, entrevistando os três autores
que estiveram na cidade em outubro
para leituras dramáticas de suas
obras: Silvia Gomez, Pedro Brício e
eu.
https://www.youtube.com/watch?v=I0p5R0_vIsM
***
Em 1989,
ainda no 3.o colegial, em aula
preparatória para o vestibular, o
professor Cassoni, de Literatura, nos
citou uma poesia de Antero de Quental
da qual nunca me esqueci, pelos dois
versos iniciais. Ainda hoje ela me
acompanha, nos momentos de grande
tristeza. É um soneto de mais de 150
anos.
TORMENTO DO
IDEAL
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da
serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a
terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou
torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que
jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele
encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que
erra
Ao pôr-do-sol e sobre o mar
discorre.
Pedindo à forma, em vão, a ideia
pura,
Tropeço, em sombras, na matéria
dura,
E encontro a imperfeição de quanto
existe.
Recebi o batismo dos poetas,
E assentado entre as formas
incompletas
Para sempre fiquei pálido e
triste.
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BREVIDADES
Sobre o bárbaro atropelamento
de um cidadão
Tento
obedecer ao dever de não me
revoltar. A notícia passa
mais rápido que os homens.
Hoje é mais um dia em que não
vou me revoltar com o que
existe de mau. Tomei meu
remédio, comi meu chocolate e
estou feliz. Lágrimas nos
olhos não importam.
Meu dever é achar nele algo
de bom, de purificado ou
purificável. Senão amanhã
deixarei de me calar. E, se
eu não me calar, irei sofrer
por todas as
injustiças.
Não sei quem é ele. Matou um
rapaz e a polícia o procura,
é tudo que sei. Desculpem-me
se, diante do fato, apenas me
sento e escrevo. Mas não sei
gritar como deveria. Só sei
escrever brandamente,
desculpem. Ele matou um rapaz
e minhas palavras parecem um
passeio no parque.
Mas como eu poderia gritar de
revolta? Não fui eu que matou
o rapaz. Foi ele. E não sei
quem ele é, nem a polícia
sabe. Sabe que estava num
carro, que era noite, e que
ele estava inconformado por
terem arranhado o seu carro.
Então ele condenou um rapaz
na rua. Acelerou, atropelou,
matou.
Mas não tenho também eu a
minha fúria? Por exemplo,
neste instante, será que eu
não aceleraria para também
matá-lo?
Escrever é um narcótico. Em
alguns minutos, estarei
clicando aqui e ali
novamente, agora para as
notícias boas, as fotos
alegres, as cenas curiosas, a
tela me trazendo melhores
ares.
Não escrevam. Se querem ser
cidadãos atuantes, pensem,
mas não escrevam. Escrever é
além de pensar: reorganiza o
mundo e não há mais caos. A
morte do jovem rapaz, que ia
ser pai, dilui-se num
panorama imenso, que inclui
todas as tragédias. Se um
acidente nos choca e nos
entristece, por que a
brutalidade deveria nos
revoltar? — é o que pensa o
pobre coitado que, a par de
pensar, escreve. O que é um
assassino imbecil senão um
acidente, uma fração da
realidade, um títere do
caos?
Ele próprio, ao recordar a
noite embriagado, ao ler
também sobre a morte que
causou, irá esquecer? Mas
estamos em 2009: é tarde para
outro romance sobre culpa e
autocomiseração. É tarde
também para um romance da
indiferença: a história mais
antiga é do irmão que matou o
irmão e se regozijou.
Este é o resultado de
escrever. Tudo é velho e nada
mais é chocante. Ou melhor:
“não há nada de novo”, como
disse alguém há três mil
anos. O cidadão melhor que
eu, aquele que pensou e não
escreveu, diria que “perdemos
o poder de nos indignar”. Não
perdemos. A humanidade se
alfabetizou. Assassinos leem
e retiram licença para
dirigir. Alfabetizados,
escrevemos e, escrevendo,
sabemos: tinha que ser assim.
“Estava escrito.”
Não.
Estará
escrito. E então
aceitaremos.
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A vida é ter um par de ases e
toda a mesa dar fold.
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VLOG
MEUS VÍDEOS
Deem uma olhada no meu canal e
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Paulo Santoro é
escritor, dramaturgo e criador de
jogos.
Sua estreia no Teatro aconteceu em
2004, com a peça
O canto de Gregório, que foi
dirigida por Antunes Filho com o
Grupo de Teatro Macunaíma. Este
espetáculo foi posteriormente
remontado pelo Grupo Magiluth.
Também no Teatro, foi autor de
A mulher que ri,
Plínio contra as estrelas e
Carina está viva. Sua peça
O fim de todos os milagres,
ainda inédita no palco, foi publicada
em português e espanhol.
Lançará em 2015 seu primeiro romance,
A vida longa dos
vermes.
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O
teste de
Turing
Minha peça
O teste de
Turing
foi uma das
três
premiadas no
edital para
Pequenos
Formatos
Cênicos do
Centro
Cultural São
Paulo. Assim,
ela estreará
nesse local
entre abril e
junho de
2016.
Aguardem mais
novidades!
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