Assunto: Poesia, terror, teatro, barbárie

Esta é a edição n. 13 do correio mensal de Paulo Santoro.
Peça para o programa EXIBIR IMAGENS, ou clique aqui para ver online.
Boa tarde, amigos!

Esta newsletter atrasou alguns meses porque fiz uma viagem longa e também tive alguns problemas de saúde. Felizmente agora podemos voltar à programação normal. Depois de alguns comentários breves que aponto a seguir, quero mostrar um texto de 2009, que escrevi sob a comoção de um assassinato bárbaro.

***
Eu li a Bíblia cristã, mas nunca li o Alcorão, a não ser por alguns trechos. Portanto não posso fazer uma grande comparação. Muitos têm alegado que o Alcorão apresenta forte incitação à violência contra os infiéis (ou seja, aqueles que não compartilham da fé específica pregada pelo livro), mas temos que admitir que nosso Velho Testamento e nossa história também não são exemplos perfeitos de amor e paz.

Seria até bom se o problema do terrorismo se baseasse em um debate religioso. Não é o caso. O problema é essencialmente político e econômico. Não precisa de nenhuma teoria da conspiração para alegar os múltiplos interesses por trás desses eventos. A paz numa civilização complexa demanda tempo. Felizmente já existe um motor potente trabalhando nessa direção: a indignação em massa do ser humano.

***
Tres visiones del Teatro contemporáneo de Brasil

No link abaixo você pode ver o vídeo produzido pela Embaixada do Brasil em Madri, entrevistando os três autores que estiveram na cidade em outubro para leituras dramáticas de suas obras: Silvia Gomez, Pedro Brício e eu.

https://www.youtube.com/watch?v=I0p5R0_vIsM

***
Em 1989, ainda no 3.o colegial, em aula preparatória para o vestibular, o professor Cassoni, de Literatura, nos citou uma poesia de Antero de Quental da qual nunca me esqueci, pelos dois versos iniciais. Ainda hoje ela me acompanha, nos momentos de grande tristeza. É um soneto de mais de 150 anos.

TORMENTO DO IDEAL

Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr-do-sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o batismo dos poetas,
E assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei pálido e triste.

A realidade tem mil tons de cinza. [historemas.com]
BREVIDADES

Sobre o bárbaro atropelamento de um cidadão

Tento obedecer ao dever de não me revoltar. A notícia passa mais rápido que os homens. Hoje é mais um dia em que não vou me revoltar com o que existe de mau. Tomei meu remédio, comi meu chocolate e estou feliz. Lágrimas nos olhos não importam.

Meu dever é achar nele algo de bom, de purificado ou purificável. Senão amanhã deixarei de me calar. E, se eu não me calar, irei sofrer por todas as injustiças.

Não sei quem é ele. Matou um rapaz e a polícia o procura, é tudo que sei. Desculpem-me se, diante do fato, apenas me sento e escrevo. Mas não sei gritar como deveria. Só sei escrever brandamente, desculpem. Ele matou um rapaz e minhas palavras parecem um passeio no parque.

Mas como eu poderia gritar de revolta? Não fui eu que matou o rapaz. Foi ele. E não sei quem ele é, nem a polícia sabe. Sabe que estava num carro, que era noite, e que ele estava inconformado por terem arranhado o seu carro. Então ele condenou um rapaz na rua. Acelerou, atropelou, matou.

Mas não tenho também eu a minha fúria? Por exemplo, neste instante, será que eu não aceleraria para também matá-lo?

Escrever é um narcótico. Em alguns minutos, estarei clicando aqui e ali novamente, agora para as notícias boas, as fotos alegres, as cenas curiosas, a tela me trazendo melhores ares.

Não escrevam. Se querem ser cidadãos atuantes, pensem, mas não escrevam. Escrever é além de pensar: reorganiza o mundo e não há mais caos. A morte do jovem rapaz, que ia ser pai, dilui-se num panorama imenso, que inclui todas as tragédias. Se um acidente nos choca e nos entristece, por que a brutalidade deveria nos revoltar? — é o que pensa o pobre coitado que, a par de pensar, escreve. O que é um assassino imbecil senão um acidente, uma fração da realidade, um títere do caos?

Ele próprio, ao recordar a noite embriagado, ao ler também sobre a morte que causou, irá esquecer? Mas estamos em 2009: é tarde para outro romance sobre culpa e autocomiseração. É tarde também para um romance da indiferença: a história mais antiga é do irmão que matou o irmão e se regozijou.

Este é o resultado de escrever. Tudo é velho e nada mais é chocante. Ou melhor: “não há nada de novo”, como disse alguém há três mil anos. O cidadão melhor que eu, aquele que pensou e não escreveu, diria que “perdemos o poder de nos indignar”. Não perdemos. A humanidade se alfabetizou. Assassinos leem e retiram licença para dirigir. Alfabetizados, escrevemos e, escrevendo, sabemos: tinha que ser assim. “Estava escrito.”

Não. Estará escrito. E então aceitaremos.

A vida é ter um par de ases e toda a mesa dar fold.
VLOG
MEUS VÍDEOS

Deem uma olhada no meu canal e assinem! :-)

O AUTOR
Paulo Santoro é escritor, dramaturgo e criador de jogos.

Sua estreia no Teatro aconteceu em 2004, com a peça O canto de Gregório, que foi dirigida por Antunes Filho com o Grupo de Teatro Macunaíma. Este espetáculo foi posteriormente remontado pelo Grupo Magiluth.

Também no Teatro, foi autor de A mulher que ri, Plínio contra as estrelas e Carina está viva. Sua peça O fim de todos os milagres, ainda inédita no palco, foi publicada em português e espanhol.

Lançará em 2015 seu primeiro romance, A vida longa dos vermes.
O teste de Turing

Minha peça O teste de Turing foi uma das três premiadas no edital para Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo. Assim, ela estreará nesse local entre abril e junho de 2016. Aguardem mais novidades!
Assine esta mensagem

Se você ainda não assina meu correio mensal, clique aqui para vê-la online e então aperte o botão "Assinar" no alto da tela. Claro que é totalmente GRATUITO. :-)
Like Twitter Forward
Rua Schilling, 134, casa 3, 05302-000, Sao Paulo, Brazil
Você pode cancelar sua assinatura ou alterar os seus dados de contato a qualquer momento.

Powered by:
GetResponse
    Loading...