Sabem
por que gostamos de filmes
de cinema?
Na segunda-feira, você está
ocupado com seu desempenho
no trabalho, manda
currículos em prospecção de
novas oportunidades,
planeja cursos, concursos,
vislumbra dias
diferentes.
Na terça, tudo o que lhe
ocorre é sair, encontrar
uma mulher bonita,
abraçá-la e beijá-la, ir
para a cama com
ela.
Na quarta vem uma dor de
barriga, os remédios não
funcionam, você não sabe se
vai ao pronto-socorro
lotado ou se enfia dois
dedos na
garganta.
Na quinta-feira vêm à sua
cabeça pensamentos
edificantes: sua vida é
curta, mas é única, é bela,
você sente aquela liberdade
para abrir os braços e
gritar ao universo sua
existência.
Mas na sexta-feira a
privada entope, alaga o
banheiro todo, você não
acha um encanador e tem que
pedir para se lavar no
vizinho.
No sábado você reconhece
que tem de agradecer aos
Céus por não ter ocorrido
nenhuma tragédia em sua
vida.
E no domingo você vai ao
cinema. Como é relaxante!
Porque nos filmes cada
personagem só se preocupa
com um aspecto da vida. Por
exemplo, um romance. O moço
conhece a moça, gosta dela.
Descobre que ela tem
namorado, mas a convida
para um café num dia, força
um encontro casual no
outro, monitora o
relacionamento oficial,
fica contente quando eles
discutem, inventa outros
artifícios, passa meses
nesse investimento — e você
não o viu trabalhando, nem
pagando contas, nem
esquentando o almoço, nem
ligando pra família, nem
tomando remédio, nem
consertando o vazamento,
nem fazendo o supermercado.
Não houve uma segunda, uma
terça, um sábado. A vida
dele estava dedicada àquela
paixão e nada mais. Como é
relaxante apreciarmos essa
simplicidade!
Melhor ainda é aquele filme
de ação em que o sujeito
precisa salvar o mundo. O
míssil vai ser detonado
pelo bandido, e matará 1
milhão de pessoas. Diante
dessa situação, o herói
pode tudo. Não apenas pode:
deve! Se ele precisa de um
carro, pegará qualquer um
que estiver estacionado.
Cometerá todas as infrações
de trânsito do código. Dará
tiros, enganará porteiros,
saltará pela janela
segurando uma corda,
provocará outras explosões.
Não importa, o objetivo
premente deixa claro o que
deve ser feito. Como é
relaxante uma vida em que
se pode agir sem sofrer
nenhuma
dúvida!
Mas nós estamos presos aos
altos e baixos, às decisões
cheias de opções cinza, às
pequenezas que atrapalham
nossas aspirações
épicas.
(Gostaria de escrever um
pouco mais, mas preciso ir
pôr o lixo para fora. Até
breve.)