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O IMPEACHMENT
A dois dias do provável
impeachment, este é um momento de
vergonha e tristeza.
Por que, afinal, eu me importo com
política? Eu poderia seguir a vida
com meu trabalho e as coisas que
escrevo. Muitos fazem isso: ricos ou
pobres, dedicam-se a um gosto, à
carreira, à família, ao que seja, e
vivem hoje como ontem, mesmo que uma
Revolução Francesa esteja passando
bem a seu lado.
Mas eu sinceramente me importo com o
que está à volta. Tímido, nunca fui
longe em aventuras gregárias, mas
desde adolescente saía para
panfletar, lia programas de governo,
tentava me informar para responder às
objeções, tinha 16 anos exatamente no
ano em que o voto passou a ser
permitido nessa idade, então entrei
com tudo, fui fiscal de apuração, era
a volta das eleições diretas para
Presidente e meu candidato era Mário
Covas. Tinha amigos que iam votar no
Brizola, outros no Lula, no final
convergimos todos para o Lula contra
a invenção midiática que era o
Collor. Lembro que no dia da votação
no segundo turno uma mulher tentou me
aliciar, sussurrando que o Lula ia
confiscar o dinheiro de todos se
fosse eleito. Collor é que fez isso
com menos de um mês de governo.
É impossível haver qualquer governo
perfeito. Porque cada decisão é uma
punhalada. Se você quer entender o
que é estar no meio de um tiroteio,
pense nesta história simplíssima: seu
superior no trabalho um dia lhe diz:
"Vou precisar demitir Fulano. Não
conte para ninguém." Uma semana
depois, a demissão acontece. Em
seguida Fulano vem reclamar a você:
"Você sabia e não me falou nada!".
Assim, sem ter dado nem um passo para
lado algum, sem pedir nenhuma
responsabilidade, você estava na
situação de irritar uma pessoa ou
outra. Qualquer uma delas julgaria
você um traidor. Agora multiplique
isso por mil, com todas as decisões
que um governante precisa tomar.
Mesmo que não houvesse grandes
pressões e interesses por trás de
determinada decisão e você pudesse
julgar à vontade, ainda assim haveria
a possibilidade de errar e criar
problemas.
Em essência, eu não gostava do
governo de Fernando Henrique. Posso
admitir que o resultado prático das
privatizações pode ter sido favorável
para muitos serviços, mas ao mesmo
tempo muitas riquezas nacionais foram
concedidas a preço de banana. As duas
coisas são verdade. Enquanto a lei
dos genéricos foi um belo avanço, a
emenda da reeleição foi vergonhosa.
De todo modo, de tanto discordar de
Fernando Henrique, quando ele ia dar
entrevista eu assistia com avidez. Eu
lia notícias e opiniões contrárias a
ele, e somente ele poderia se
defender da melhor maneira possível.
Então, não, eu não batia panela
quando ele falava. E em alguns casos
ele dava respostas boas, que
mostravam como a imprensa pode ser
desorientadora quando dá voz a
somente um lado.
O governo Lula, com iniciativas como
o ProUni, conseguiu dar chances de
formação universitária para muita
gente. Ainda que tenha havido lobby
das faculdades particulares, que elas
estejam enriquecendo, foi uma
implementação prática que tem feito
diferença na vida das pessoas. Também
foram criadas faculdades, mas até
mesmo grupos estudantis têm achado
mais correto criticar do que elogiar
o programa. Não é fácil governar.
Os acontecimentos que levaram a este
momento são tão complexos que
precisaríamos de milhares de páginas
para deslindar. E eu certamente não
seria capaz para essa tarefa. Fico
assustado com cada mensagem que
termina com a frase "simples assim".
Não é simples assim, nem de jeito
algum. É mais complexo do que a
teoria da relatividade. A quantidade
de personagens, de movimentos, até de
acasos, é gigantesca.
Para tentar me orientar, faço algumas
considerações. Elas não limpam a
complexidade. Não a ignoram. O que
acontece é que o gigantesco jogo de
forças que é a política costuma
instaurar essa complexidade nos
acontecimentos. Por exemplo, quando
uma lei importante está sendo criada,
existe uma abertura inicial para a
sociedade debater, depois os diversos
interesses se posicionam, há pressão
das várias partes que serão afetadas
pela lei, e no final temos um
resultado com certo balanceamento. As
partes conseguem tirar alguns
detalhes da lei inicial, incluir
outras e toda a negociação dentro
dessa complexidade jurídica e
política leva então a uma solução que
vira lei para todos.
Mas a decisão sobre o impeachment é
um afunilamento. Infelizmente não
existe um meio-termo que concilie a
oposição política no momento, porque
se trata da votação de impeachment da
presidente Dilma Rousseff. O
impeachment é um SIM ou um NÃO. Toda
a complexidade fica de lado neste
momento.
É então que precisamos pensar como se
chegou ao processo de impeachment.
Saiu das manifestações populares
contra a corrupção? Mas Dilma nunca
foi acusada de corrupção. A própria
pedalada fiscal, se fosse motivo para
impeachment, não é relacionada à
corrupção. Além disso, Eduardo Cunha
ficou meses com os pedidos de
impeachment na gaveta, aparentemente
os usando como moeda de troca, e
resolveu acatar um desses pedidos
assim que o PT o desagradou numa
matéria relevante. E agora, mesmo
sabendo que as pedaladas sempre foram
consideradas juridicamente corretas
em governos anteriores e em pelo
menos 16 governos estaduais, a
votação vai a plenário. O fundo,
portanto, é totalmente político. O
exame jurídico é um teatrinho. Todos
os petistas votarão contra, todos os
tucanos votarão a favor. Se houvesse
qualquer avaliação jurídica, pelo
menos alguns de um lado estariam
votando de forma diferente.
Para piorar os vícios desse processo,
Eduardo Cunha, que é o mais
investigado por corrupção entre todos
os membros do parlamento, é quem
preside com imunidade total essa
violência contra a democracia, essa
violência contra o voto de 54 milhões
de brasileiros em 2014.
Falei no início que este é um momento
de vergonha e tristeza. Eu tenho
tristeza vendo a Justiça ser assim
achincalhada. É triste saber que,
neste caminho, teremos logo a
institucionalização do sentimento de
que vale tudo. E é uma vergonha para
este país um congresso que vote em
favor do impeachment. Porque numa
situação normal podemos tolerar as
diferenças. Que existam parlamentares
que pensem diferente de mim em muitos
e muitos temas, é absolutamente
normal. Mas votar por esse
impeachment oportunista é atentar
contra a própria democracia que os
colocou lá em primeiro lugar. É como
disse o honrado deputado Jean Wyllys,
que é declarada oposição ao governo
de Dilma: questionar a eleição dela é
questionar a minha eleição. Os
deputados que votam a favor do
impeachment estão vergonhosamente
pisoteando a democracia. O que pode
vir disso? O quê?
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