Assunto: O impeachment e a pílula do câncer

Esta é a edição n. 15 do correio mensal de Paulo Santoro.
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O IMPEACHMENT

A dois dias do provável impeachment, este é um momento de vergonha e tristeza.

Por que, afinal, eu me importo com política? Eu poderia seguir a vida com meu trabalho e as coisas que escrevo. Muitos fazem isso: ricos ou pobres, dedicam-se a um gosto, à carreira, à família, ao que seja, e vivem hoje como ontem, mesmo que uma Revolução Francesa esteja passando bem a seu lado.

Mas eu sinceramente me importo com o que está à volta. Tímido, nunca fui longe em aventuras gregárias, mas desde adolescente saía para panfletar, lia programas de governo, tentava me informar para responder às objeções, tinha 16 anos exatamente no ano em que o voto passou a ser permitido nessa idade, então entrei com tudo, fui fiscal de apuração, era a volta das eleições diretas para Presidente e meu candidato era Mário Covas. Tinha amigos que iam votar no Brizola, outros no Lula, no final convergimos todos para o Lula contra a invenção midiática que era o Collor. Lembro que no dia da votação no segundo turno uma mulher tentou me aliciar, sussurrando que o Lula ia confiscar o dinheiro de todos se fosse eleito. Collor é que fez isso com menos de um mês de governo.

É impossível haver qualquer governo perfeito. Porque cada decisão é uma punhalada. Se você quer entender o que é estar no meio de um tiroteio, pense nesta história simplíssima: seu superior no trabalho um dia lhe diz: "Vou precisar demitir Fulano. Não conte para ninguém." Uma semana depois, a demissão acontece. Em seguida Fulano vem reclamar a você: "Você sabia e não me falou nada!". Assim, sem ter dado nem um passo para lado algum, sem pedir nenhuma responsabilidade, você estava na situação de irritar uma pessoa ou outra. Qualquer uma delas julgaria você um traidor. Agora multiplique isso por mil, com todas as decisões que um governante precisa tomar. Mesmo que não houvesse grandes pressões e interesses por trás de determinada decisão e você pudesse julgar à vontade, ainda assim haveria a possibilidade de errar e criar problemas.

Em essência, eu não gostava do governo de Fernando Henrique. Posso admitir que o resultado prático das privatizações pode ter sido favorável para muitos serviços, mas ao mesmo tempo muitas riquezas nacionais foram concedidas a preço de banana. As duas coisas são verdade. Enquanto a lei dos genéricos foi um belo avanço, a emenda da reeleição foi vergonhosa. De todo modo, de tanto discordar de Fernando Henrique, quando ele ia dar entrevista eu assistia com avidez. Eu lia notícias e opiniões contrárias a ele, e somente ele poderia se defender da melhor maneira possível. Então, não, eu não batia panela quando ele falava. E em alguns casos ele dava respostas boas, que mostravam como a imprensa pode ser desorientadora quando dá voz a somente um lado.

O governo Lula, com iniciativas como o ProUni, conseguiu dar chances de formação universitária para muita gente. Ainda que tenha havido lobby das faculdades particulares, que elas estejam enriquecendo, foi uma implementação prática que tem feito diferença na vida das pessoas. Também foram criadas faculdades, mas até mesmo grupos estudantis têm achado mais correto criticar do que elogiar o programa. Não é fácil governar.

Os acontecimentos que levaram a este momento são tão complexos que precisaríamos de milhares de páginas para deslindar. E eu certamente não seria capaz para essa tarefa. Fico assustado com cada mensagem que termina com a frase "simples assim". Não é simples assim, nem de jeito algum. É mais complexo do que a teoria da relatividade. A quantidade de personagens, de movimentos, até de acasos, é gigantesca. 

Para tentar me orientar, faço algumas considerações. Elas não limpam a complexidade. Não a ignoram. O que acontece é que o gigantesco jogo de forças que é a política costuma instaurar essa complexidade nos acontecimentos. Por exemplo, quando uma lei importante está sendo criada, existe uma abertura inicial para a sociedade debater, depois os diversos interesses se posicionam, há pressão das várias partes que serão afetadas pela lei, e no final temos um resultado com certo balanceamento. As partes conseguem tirar alguns detalhes da lei inicial, incluir outras e toda a negociação dentro dessa complexidade jurídica e política leva então a uma solução que vira lei para todos.

Mas a decisão sobre o impeachment é um afunilamento. Infelizmente não existe um meio-termo que concilie a oposição política no momento, porque se trata da votação de impeachment da presidente Dilma Rousseff. O impeachment é um SIM ou um NÃO. Toda a complexidade fica de lado neste momento.

É então que precisamos pensar como se chegou ao processo de impeachment. Saiu das manifestações populares contra a corrupção? Mas Dilma nunca foi acusada de corrupção. A própria pedalada fiscal, se fosse motivo para impeachment, não é relacionada à corrupção. Além disso, Eduardo Cunha ficou meses com os pedidos de impeachment na gaveta, aparentemente os usando como moeda de troca, e resolveu acatar um desses pedidos assim que o PT o desagradou numa matéria relevante. E agora, mesmo sabendo que as pedaladas sempre foram consideradas juridicamente corretas em governos anteriores e em pelo menos 16 governos estaduais, a votação vai a plenário. O fundo, portanto, é totalmente político. O exame jurídico é um teatrinho. Todos os petistas votarão contra, todos os tucanos votarão a favor. Se houvesse qualquer avaliação jurídica, pelo menos alguns de um lado estariam votando de forma diferente.

Para piorar os vícios desse processo, Eduardo Cunha, que é o mais investigado por corrupção entre todos os membros do parlamento, é quem preside com imunidade total essa violência contra a democracia, essa violência contra o voto de 54 milhões de brasileiros em 2014.

Falei no início que este é um momento de vergonha e tristeza. Eu tenho tristeza vendo a Justiça ser assim achincalhada. É triste saber que, neste caminho, teremos logo a institucionalização do sentimento de que vale tudo. E é uma vergonha para este país um congresso que vote em favor do impeachment. Porque numa situação normal podemos tolerar as diferenças. Que existam parlamentares que pensem diferente de mim em muitos e muitos temas, é absolutamente normal. Mas votar por esse impeachment oportunista é atentar contra a própria democracia que os colocou lá em primeiro lugar. É como disse o honrado deputado Jean Wyllys, que é declarada oposição ao governo de Dilma: questionar a eleição dela é questionar a minha eleição. Os deputados que votam a favor do impeachment estão vergonhosamente pisoteando a democracia. O que pode vir disso? O quê?
 

A realidade tem mil tons de cinza. [historemas.com]
A PÍLULA DO CÂNCER

Concordo com a perspectiva científica que pode ser lida neste artigo. Mas o problema tem outras faces.

É preciso levar em conta o estado em que ficam os doentes e as famílias quando os médicos simplesmente dizem "não há mais o que fazer".

Pode ser verdade, mas o paciente ainda está vivo ali, olhando para o espelho, respirando ainda, seus familiares estão a seu lado, ninguém fica conformado, ninguém vai dizer "Pois muito bem, vamos aguardar a morte, o que está passando na TV?". Isso simplesmente não acontece.

Quando "não há mais o que fazer", ficam todos automaticamente liberados para tentar o que quiserem, e é principalmente aí que entram as plantas milagrosas, os rezadores de todo tipo, os remédios que estão sendo testados... diante do "não há mais o que fazer", que pudor teríamos por um remédio de eficácia não comprovada? Vamos engolir essa porcaria! Vamos tentar tudo!
Ninguém pode ficar surpreso com o que uma família faz quando ouve "não há mais o que fazer".

O que não pode é haver confusão: as primeiras tentativas devem ser os recursos mais testados, mais fidedignos. Mas, na hora em que "não há mais o que fazer", todos os pacientes deveriam ser encaminhados para drogas em teste, em vez de encaminhados para morrer em paz em casa...

Sonho com o dia em que seja hábito terminar textos com a frase "Complexo assim", em vez de "Simples assim".
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O AUTOR
Paulo Santoro é escritor, dramaturgo e criador de jogos.

Sua estreia no Teatro aconteceu em 2004, com a peça O canto de Gregório, que foi dirigida por Antunes Filho com o Grupo de Teatro Macunaíma. Este espetáculo foi posteriormente remontado pelo Grupo Magiluth.

Também no Teatro, foi autor de A mulher que ri, Plínio contra as estrelas e Carina está viva. Sua peça O fim de todos os milagres, ainda inédita no palco, foi publicada em português e espanhol.

Lançará em 2016 seu primeiro romance, A vida longa dos vermes e estreará seu novo espetáculo de Teatro, O teste de Turing, no dia 15 de julho em São Paulo.
Jogo de tabuleiro

Em 2012, foi publicado meu jogo de tabuleiro Deterrence, que tematiza a corrida armamentista durante a Guerra Fria. Eu o transformei em um novo jogo, que usa apenas cartas, e que foi lançando pela Funbox em 2016 como Deterrence 2X62. Veja mais aqui!
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