Esfregue os olhos e leia: está na hora de mudar tudo o que você pensava sobre aquela célebre passagem bíblica que mostra como um israelita nanico venceu o musculoso gigante filisteu.
"Davi e Golias", mais recente obra de Malcolm Gladwell, vem tornar real um incrível disparate.
Os livros de Gladwell costumam ser encaixados na categoria de "não-ficção", mas são sempre atrativos para quem gosta de histórias também.
Ele é um ótimo entrevistador e pesquisador de fatos históricos, que reconstrói em narrativas para ao mesmo entreter e funcionar como exemplos claros dos fenômenos que deseja debater.
Davi é que era favorito? A explicação parece surpreendente quando não conhecemos alguns rudimentos da técnica militar.
Na guerra antiga, havia três tipos distintos de guerreiros: o de infantaria, o de cavalaria e o de projéteis (que no futuro passaria a ser chamado de "artilharia"). Como num jogo de papel, pedra e tesoura, cada tipo domina um dos outros e é dominado pelo terceiro.
Com lanças, armaduras e mobilidade, a infantaria resiste bem à cavalaria. A cavalaria, por sua vez, derrota a artilharia, que não tem tempo para fazer mira diante dos velozes deslocamentos dos animais. E a artilharia, à distância, bate com facilidade a lenta infantaria.
Somos levados a pensar que um combate mano a mano deva ser "naturalmente" realizado de igual pra igual, ambos os lutadores com as mesmas armas. Mas isso seria um esporte, não uma guerra.
O fato é que Davi era o artilheiro contra um enorme alvo de infantaria. Golias tinha tantas chances contra ele quanto um bom guerreiro armado com uma espada teria contra um adversário portando um revólver.
É claro que esse episódio histórico permanecerá como alegoria das vitórias criativas dos mais fracos. Gladwell conduz seu livro com esse enfoque, contando, por exemplo, a ascensão artística dos jovens impressionistas franceses — Renoir, Manet, Cézanne, etc. — que enfrentaram o poderoso e tradicionalista Salon de Paris, onde eram segregados, criando uma galeria própria, pequena, mas em que eram eles os notáveis.
Sobre uma situação mais moderna, e relevante para todos os jovens que estão para entrar na universidade, Gladwell demonstra que é melhor você se destacar numa instituição de segunda linha do que sofrer para acompanhar os colegas numa de primeira linha. Isso é comprovado por numerosos dados de desempenho dos estudantes, mesmo depois de concluído o curso. Às vezes pode ser melhor entrar numa faculdade Davi do que numa faculdade Golias.
Para terminar, o livro ainda descreve longamente a "arma dos mais fracos" em tensas situações sociais, como o ativismo negro dos anos 1960. Conta a história do pastor Wyatt Walker, praticamente um pioneiro em explorar a mídia nascente, ao organizar provocações durante os manifestos para que a polícia agisse com brutalidade e os relatos chamassem a atenção do país inteiro para os problemas que viviam.
Atitude, aliás, reforçada pelo próprio Martin Luther King, que chegou a criticar um fotógrafo da revista "Life" por ter deixado sua câmera de lado para ajudar um manifestante ferido: "O mundo não sabe que isso aconteceu porque você não fotografou".
E tem muito mais neste livro moderno, de leitura agradável e bastante informativo. Recomendo a leitura.