Assunto: Mensagem do autor Paulo Santoro, n. 3

Esta é a edição n. 3 da newsletter mensal de Paulo Santoro.
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Caro amigo! Esta edição vem comemorar o lançamento do meu VLOG. Já tem um vídeo no ar, e quinta sai mais. Clique aqui para ver o primeiro, sobre o livro "O nobre deputado", que denuncia a corrupção política no País.

Leia abaixo o meu artigo sobre Alan Turing, um gênio trágico que você precisa conhecer. Você deve muito a ele e não sabe! Pague o que deve sabendo pelo menos um pouco sobre o que ele realizou! :-)

Um dos leitores irá ganhar o excelente livro O MÉDICO E O MONSTRO, de R. L. Stevenson. Veja no final as instruções para participar.
Reflita! Não permita que o direito de opinar insufle em você o prazer de falar besteiras.

Um gênio essencial que você precisa conhecer

Talvez você não saiba o tamanho de sua dívida com o sábio britânico Alan Turing, um gênio essencial que você precisa conhecer. Mas não se sinta sozinho. Se usarmos o Google como medidor de popularidade, vamos ver que a pesquisa de nomes importantes da Ciência, como Stephen Hawking e Richard Dawkins, têm cerca de quatro vezes mais resultados que Turing. E eu quero mostrar para você que ele merecia muito mais reconhecimento do que tem.

Eu vou apontar três razões para o tributo que devemos pagar a Alan Turing. Se você precisa de apenas uma, fique com esta: ele criou o computador moderno. Foi num artigo de 1936, quando ele tinha 24 anos. Seu objetivo não era fazer um projeto de fabricação da máquina, pois na época nem existiam os recursos tecnológicos necessários — o que, aliás, torna sua precocidade ainda mais marcante. O que ele queria em seu artigo era analisar a questão dos “números indecidíveis”, um problema levantado pelo matemático Kurt Gödel, que tinha implicações de natureza mais abstrata. Para lidar com a complexidade desse problema tão árduo, Turing foi engenhoso: ele imaginou máquinas simples, cada uma responsável por uma pequena operação matemática, e em seguida “postulou” a existência, a partir delas, de uma máquina complexa que pudesse ser programada para funcionar como qualquer outra máquina. Ela foi chamada de “máquina universal de Turing”, e constitui um sólido fundamento teórico para todo o desenvolvimento tecnológico que aconteceu depois, e que fez Turing ser considerado o Pai da Computação.

Alan Turing também é um nome central nas pesquisas sobre Inteligência Artificial. Em 1950, mesmo ano em que Isaac Asimov lançou a obra ficcional “Eu, robô”, Turing publicou um artigo que se iniciava com uma simples questão: “Podem as máquinas pensar?”. Neste texto ele define o que poderia ser considerado “pensar” para uma máquina, e despertou uma discussão filosófica que ainda não se encerrou e que tem profundas implicações sobre o sentido de nossa consciência e humanidade. Ele também descreve como seria um “teste” para verificar se uma máquina pensa ou não. O teste consiste de um ser humano que, fechado em uma sala com acesso apenas a um terminal com teclado, “conversa”, como num chat de internet, ao mesmo tempo, com um ser humano (que está em outra sala igual à dele) e com um computador que tenta ir montando frases coerentes com a conversa. Se no final o aplicador do teste não conseguir distinguir, dentre os dois “indivíduos”, qual era o computador e qual era o ser humano, o computador terá então sido convincente em sua tentativa de parecer um ser humano e terá passado no teste de Turing. Até hoje desenvolvedores de aplicativos tentam construir um programa de inteligência artificial que vença o teste de Turing, mas esse teste é menos importante em seu aspecto prático do que pelo que representa filosoficamente, pelo desafio que levanta à nossa condição humana. Afinal, se chegarmos à conclusão de que um computador consegue pensar, não nos veríamos então reduzidos ao estado de simples máquinas?

O impacto da genialidade de Turing também deve assombrar os mais pragmáticos. Ele foi um herói da Segunda Guerra Mundial, quando trabalhou como decifrador de mensagens nazistas, fundamental para as decisões de guerra dos Aliados. Turing se destacou desde 1939 na equipe de quebradores de códigos que se reunia secretamente em Bletchley Park, local próximo a Londres. Durante o conflito, os alemães usaram intensamente uma máquina de codificação de mensagens chamada Enigma. A máquina Enigma havia sido criada logo depois do fim da Primeira Guerra, e foi evoluindo continuamente para fazer com que os códigos que ela produzia se tornassem cada vez mais difíceis de decifrar. Quando a guerra começou, os cuidadosos alemães passaram a trocar as chaves a cada 24 horas. Com isso, a monitoria das comunicações inimigas era praticamente um trabalho de Sísifo: toda meia-noite, tudo o que havia sido descoberto durante o dia se tornava imediatamente inútil. Embora já existissem algumas estratégias de ataque aos códigos da Enigma, Turing manifestou o receio de que em algum momento os alemães iriam implementar uma correção no uso da ferramenta e eliminar determinadas falhas que permitiam que os aliados decifrassem as mensagens. Por isso ele se antecipou, elaborando e mandando construir uma super-máquina para a época, que seria capaz de atacar consistemente os códigos. Turing estava certo, os inimigos agiram e Bletchley Park chegou a ficar às cegas durante alguns meses de 1940, enquanto sua máquina era aperfeiçoada. Enfim ela ficou pronta e foi batizada de Agnus Dei, sendo essencial para o trabalho dos decifradores, e fazendo com que eles passassem a desfrutar de um enorme prestígio com Churchill.

O especialista Simon Singh, autor de “O livro dos códigos”, considera que o trabalho em Bletchley Park pode ter sido decisivo para a vitória dos aliados ou que, no mínimo, encurtou a guerra significativamente. Um dos colegas de Turing em Bletchley exaltou sua importância com uma afirmação muito curiosa. Ele disse: “Felizmente as autoridades não sabiam que Turing era homossexual. De outro modo, podíamos ter perdido a guerra”.

O trabalho dos criptoanalistas era altamente confidencial, e precisou se manter secreto, por razões de segurança, durante quase trinta anos. Alan Turing não pôde desfrutar do status de herói. Pelo contrário: em 1952, ele foi preso e processado por ser homossexual. Proibiram suas pesquisas e o forçaram a iniciar um tratamento com hormônios, que o deixou obeso, doente e deprimido.

Um pouco mais tarde, infeliz e afastado de seus projetos, Alan Turing envenenou uma maçã com cianeto e em seguida a comeu, aos 42 anos de idade.
Para tornar uma brincadeira muito mais divertida, leve-a a sério.
FICÇÃO
ROTAÇÃO

Ele espalhou, nas paredes de sua casa, 48 relógios.

Apenas um marca a hora certa. Um está 15 minutos atrasado. Outro, 30. Outro, 45. O último está, por fim, 15 minutos adiantado.

Ele sabe as horas olhando para qualquer um deles. Explica que faz isso para manter desperto o próprio raciocínio analítico.

Há fórmulas que ele emprega para saber as horas, de acordo com a posição do relógio na parede e com a proximidade de outros relógios.

Ele também se sente confortável com a multiplicidade de horários de que dispõe. Ao acordar, pensa que gostaria que fosse a hora tal — então passa a ordenar-se, naquele dia, pelo relógio que está marcando o horário desejado. Podendo mudar de relógio, se isso lhe parecer conveniente, a qualquer hora — de qualquer relógio.

Rapidamente ele se esquece do passado. Do futuro, desdenha. Vive exclusivamente no presente, que ele distendeu como borracha, para sonhar-se imperecível.
O AUTOR
Paulo Santoro escreve ficção para o leitor que pensa. Seu primeiro trabalho a entortar cérebros foi O canto de Gregório, espetáculo teatral dirigido por Antunes Filho. Seus textos desafiam as fronteiras da lógica para fazer uma síntese das grandes ideias que movem o ser humano.

Outros três textos de sua autoria já foram levados aos palcos. Teve duas peças publicadas em livro pelo Sesc de São Paulo e participou da equipe de roteiristas da série Sessão de Terapia, exibida pelo canal GNT com direção de Selton Mello. 
Depoimento

Eu descreveria Paulo Santoro como um autor filosófico, sem os clichês existenciais da nova dramaturgia. É mais profundo, culto e inteligente.

Yara de Novaes, diretora de Teatro
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Vencedor de BARTLEBY, O ESCRIVÃO

Na promoção do livro Bartleby, o escrivão, a vencedora foi Maíra Franco Tangerino, que receberá em casa um exemplar!
Leitura de O TESTE DE TURING

O Núcleo Arte Ciência no Palco fará nesta quarta, dia 30 de julho, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em São Paulo, a leitura dramática do meu texto teatral O TESTE DE TURING. Estarei lá!
Gratuito, 20h30, na Rua Teodoro Baima, 94. Com direção de Riba Carlovich.
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