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Argumento para um
best-seller
Apresento aqui um argumento
para best-seller. Vendo
barato.
Ele era um pobre rapaz vivendo
num local perdido, à beira da
linha férrea, responsável por
manter em ordem uma cobertura
para (raros) passageiros e um
entroncamento que (raramente)
precisava ser manipulado.
Torna-se amigo dos lobos e das
raposas, enquanto os trens
passam indiferentemente. Vagões
acinzentados levando cargas
cinzentas.
Ele se lembra de que o serviço
antigamente era do pai. Um dia
o pai de repente lhe dissera:
“Vou morrer”. Não deveria haver
surpresa nessa afirmação, já
que todos um dia vão morrer
(mas essa observação não deve
ser feita em um best-seller). O
fato é que o pai morre sem
demora. Ele se lembra de que
ficou triste.
Cinco dias depois, chega uma
carta para ele. Era de seu pai.
O leitor normal irá entender
que a carta foi enviada pelo
pai ainda antes de morrer. Mas
deixe espaço para que o leitor
anormal pense que a carta veio
do além.
A carta dá instruções para que
ele continue o trabalho na
linha do trem. Sem outros
sonhos, ele vai, e é onde está
agora.
Em determinado momento, ele
começa a fazer algo diferente
do que vinha fazendo antes. Não
deve haver explicações
imediatas para o leitor. Ele
está colhendo no campo
determinadas plantas e
sementes, que são moídas,
misturadas com água, com seiva,
etc. No final, sabe-se que ele
está produzindo tintas.
Com um larguíssimo pincel
também improvisado a partir de
materiais naturais disponíveis,
ele começa a pintar os
cinzentos vagões dos trens de
carga, que passam sem nenhuma
velocidade espetacular.
Mesmo assim, o trabalho é
demorado. Um mesmo comboio pode
demorar semanas para passar
novamente, e é preciso passar
dezenas de vezes para que ele
consiga pintá-lo por inteiro.
Lembre-se de que para o leitor
isso não tem nenhum problema.
Você pode pular vários anos em
um parágrafo, portanto o lento
trabalho do protagonista irá
comover, e não entediar.
Em breve (no tempo do leitor,
claro), os vagões passarão a
correr por ali iluminados de
cores vivas, embelezando a mata
e abrandando as incursões do
protagonista pelo terror da
solidão.
Certo dia aparece vindo,
acompanhando os trilhos, um
homem num cavalo. Já o esperava
o leitor? Sem dúvida, alguém
das pontas da via haveria de se
perguntar sobre quem andava
pintando os vagões de
carga.
Se isto fosse apenas um
conto, o homem estaria chegando
para despedir nosso herói e
tomar-lhe o lugar. “O
supervisor não quer que os
vagões de carga sejam
pintados.” Mas isto não é um
conto, e sim um argumento para
best-seller. Portanto o homem é
apenas um colega, um
trabalhador normal do populoso
centro industrial aonde chegam
as severas cargas dos comboios.
“Quis conhecer o homem que me
inspirou. Estou pintando toda a
cidade.”
O protagonista só consegue
responder com um abraço. A
câmera vai se afastando para o
alto... ops, isto ainda não é a
adaptação para cinema.
Título do best-seller: “O homem
que pintava trens”.
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