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FICÇÃO
Diálogo na antessala das armas
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Na
praça de guerra, o general Azul
e o general Vermelho caminham
diante de seus batalhões
preparados para o sangue. Sob o
sol claro, dão-se as mãos e se
sentam em duas cadeirinhas
improvisadas, separadas por uma
mesa metálica.
— Compreenda — explica Azul —,
eu tenho mais homens. São 1651
azuis contra 1240 vermelhos —
confere em seu smartphone, que
já sincronizara em wifi com os
chips em cada um dos soldados
presentes. — Segundo a teoria
geral das batalhas campais,
serão mortos 815 vermelhos
antes da rendição, contra 834
azuis: números maiores, é
claro, mas em proporção menor.
Sobrarão 817 de meus homens
contra 425 dos seus,
completamente
desmoralizados.
— Existe uma margem de erro...
— tentou intervir o
Vermelho.
— Sem dúvida há uma margem de
erro estatístico — completou
Azul —, e faço questão de
deixá-la totalmente em seu
favor. Vou até arredondar para
o seu lado, dizendo que
sobrarão 800 dos meus homens
contra 450 dos seus. Ainda
assim, uma vitória
incontestável. A solução para
evitar todas essas mortes
desnecessárias, uma vez que
sabemos o resultado da batalha,
é que você conceda, aos
vermelhos que morreriam, um
exílio com todas as honras,
enquanto farei o mesmo com os
meus “mortos”. Depois você
levará seus sobreviventes a um
trabalho de recuperação pela
derrota e pela perda dos
companheiros. Ao mesmo tempo,
desocupa o território que
desejamos, onde irei com meus
sobreviventes festejar a
conquista.
— Sua matemática está correta —
assentiu o general Vermelho. —
Os números é que não estão. Os
chips indicam, sim, a
quantidade de indivíduos
presentes. Mas os guerreiros
vermelhos são mais bem
preparados do que os azuis.
Isso foi confirmado pelos
testes descritos em CARRYSON,
G. H., As
habilidades médias dos soldados
azuis e dos soldados
vermelhos, Colour
Militar Journal, v.4, n. 11.
Pela conclusão, um soldado
vermelho equivale, em média, a
1,57 soldado azul. Sendo assim,
equivalemos a 1946 dos seus
soldados. A partir dessa
correção, basta aplicar a mesma
matemática que você usou e
teremos nossa vitória, a ser
celebrada em nosso próprio
território.
O general Azul ouviu os brados
sanguinários vindos de suas
fileiras, mas replicou ao
colega vermelho com
serenidade:
— Tem razão até esse ponto. Eu
mesmo poderia ter mencionado
esse fato, mas tentei
simplificar a discussão para
resolvermos logo a batalha.
Afinal, o general sabe que os
soldados vermelhos
desenvolveram melhor suas
habilidades pessoais com o
objetivo de compensar a clara
superioridade das armas azuis.
Elas são mais mortíferas, caso
fossem usadas, e mais
resistentes. Aplicando esse
fator, teremos...
E então, após duas horas de um
cruento combate de frações e
grandezas, e da disposição
acalorada de bárbaros
argumentos, um dos lados,
finalmente envergonhado,
resolveu aceitar a infâmia da
derrota. Após os cumprimentos,
a continência e demais
dignidades, o general vencido
viu se aproximar um comandante
de batalhão que tentou
recorrer, dizendo que o
resultado havia inflamado de
tal forma seus homens que agora
eles estariam muito mais
propensos à vitória do que
antes:
— Não é o suficiente — replicou
seu superior, em lamentação. —
Esse fator foi calculado
também.
Tristes por não terem morrido,
centenas de soldados derrotados
foram encaminhados para a
reserva compulsória, dando
entrada no Sistema de Suposto
Falecimento em
Combate.
(*)
Conto do futuro livro
A temperatura e a matemática
dos
sonhos.
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