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REFLEXÃO
Sobre a longevidade
"Quando agem moralmente, os
seres humanos estão em
certo sentido agindo como
se fossem imortais."
(Marc Geddes, “An
introduction to immortalist
morality”)
Quando Chico Anysio estava
doente, com pouco tempo de
vida, deu a seguinte
declaração em uma entrevista:
“Eu não tenho medo de morrer.
Eu tenho pena.”
Não é difícil compreender o
sentido dessa declaração.
Chico Anysio foi um artista,
um grande criador: homem que
trabalhou a vida inteira
escrevendo e atuando,
aprendendo novas maneiras de
fazer humor, elaborando mais
e mais personagens,
construindo, enfim, não
somente um invejável
repertório, mas uma história
atrás de si. Dá pena de
morrer: pena de enterrar toda
essa experiência única de
vida, esse talento, essa
ânsia de brincar e
descobrir.
Alguns cientistas, loucos ou
visionários, trabalham
ativamente em formas de
estender o tempo de vida dos
seres humanos. Mas nós já não
estamos ganhando uma
expectativa de vida cada vez
maior? Para responder,
permitam-me citar uma fala do
personagem Bruno Boden, que
explica a sua investigação
científica para uma colega no
meu romance
A vida longa dos
vermes:
Meu
campo de pesquisa não tem
relação com a expectativa
de vida, na verdade. A
expectativa de vida é um
valor médio, que vem
aumentando muito nos
últimos cem anos em
decorrência do saneamento
básico e das descobertas
mais fundamentais da
Medicina, como os
antibióticos e as vacinas.
Mas o tempo de vida
possível não se alterou.
Por exemplo: há dois
séculos já existiam pessoas
que passavam de cem anos,
porém eram poucas. Em um
mundo onde tanta gente
morria antes dos quarenta
ou mesmo dos trinta anos de
idade, a média acabava
sendo baixa. Ou seja, o
fenômeno que estamos
observando agora é que cada
vez mais gente sobrevive
por várias décadas, o que
aumenta a média
geral.
Para sermos precisos: a
expectativa de vida era de 25
anos no auge do Império
Romano, de 30 na Idade Média,
de 33 no Renascimento,
chegando a 47 no começo do
século XX, e a 76 no seu
final.
Assim,
o que presenciamos hoje é que
cada vez mais pessoas têm
chances de viver bastante,
até mesmo passando dos cem
anos, e com boa saúde. Mas,
por enquanto, nenhuma delas
pode ter a fantasia de vencer
a fronteira dos 110 anos, um
limite que ainda é raro de
ser
ultrapassado.
É
nesta batalha que entra o
visionário (ou louco?) Aubrey
de Grey. Trata-se de um
biólogo inglês, que se dedica
tanto à causa da imortalidade
que nem tem tempo de cortar a
barba (ou então ele
simplesmente já resolveu
aderir a um estilo
Matusalém). Alguns cientistas
o acusam de vender ilusões.
Pode ser verdade, mas grandes
descobertas saíram de
mentalidades inconformadas
como a dele. E, claro, ele
não está por aí vendendo
elixires. Procura trabalhar
com outros cientistas
britânicos que o respeitam,
certo de que a
multidisciplinaridade é
essencial para alcançar seus
objetivos.
Mas
quais são esses objetivos?
Não adianta manter a vida se
não houver saúde. O
protagonista das Viagens de
Gulliver descobriu essa
verdade em sua fantástica
excursão pela fantástica
Luggnagg, terra onde viviam
os struldbrugs.
Eram seres imortais.
Gulliver, junto com o leitor,
pensa que são as criaturas
mais bem-aventuradas do
planeta, mas lhe explicam que
é justamente o contrário. Aos
duzentos anos, um pobre
struldbrug é a personificação
da senilidade encarquilhada,
curvado, cheio de dores, um
poço de misérias. Não morria,
mas não parava nunca de
envelhecer.
O
desafio, portanto, é deter o
envelhecimento. Aubrey de
Grey fala sobre suas
reflexões no livro
Ending aging [Parando
o envelhecimento], de 2007,
mas uma abordagem mais
acessível dessas ideias pode
ser encontrada em outra obra,
Long for this world
[Um anseio por este mundo],
de Jonathan Weiner, cujo
título, como se vê, desvela
as profundas motivações do
utópico cientista
inglês.
É
evidente que não começou
ontem essa busca do
rejuvenescimento. Foi
encontrado um papiro egípcio
que tinha a receita para um
creme antirrugas! Da
mitologia de Gilgamesh aos
sonhos de Ponce de León e dos
alquimistas, a mágica da
juventude sempre deslumbrou
as aspirações
humanas.
Mas
foi no século XX que as
tentativas começaram a ser,
pelo menos até certo ponto,
mais científicas. O
neurologista britânico
Brown-Séquard, no fim do XIX,
foi o primeiro a falar em
“rejuvenation”,
chegando a tomar extratos de
testículos de certos animais
com o propósito de viver mais
tempo. O fisiologista Eugen
Steinach prosseguiu nessa
linha, transplantando
testículos de macacos em
homens — e homens célebres:
Yeats, e mesmo Freud, foram
steinachados. Os
cientistas envolvidos nessas
experiências se tornaram
importantes para a história
da medicina, pioneiros da
endocrinologia. Os
procedimentos eram coerentes
com seu tempo — mas foram
esquecidos.
Houve
um debate intenso sobre se
existe ou não uma necessidade
de morrer, no aspecto
evolutivo. Ou seja, sobre se
a morte do indivíduo é boa ou
não para toda a
espécie.
Para
o biólogo August Weismann,
“morrer é um sacrifício que
cada geração deve fazer pela
próxima”, pois a morte
elimina os indivíduos em um
tempo médio depois do qual
eles já se tornaram ruins
para a espécie.
Mas
Peter Medawar, vencedor do
Prêmio Nobel, contestou essa
análise apontando que a
seleção natural se aplica
apenas aos indivíduos ainda
jovens. Sendo assim, não
existe uma razão evolutiva
para o envelhecimento. Ele
pode ser enfrentado sem, a
princípio, nenhum grande
risco biológico para a
espécie.
Nem
mesmo é necessariamente
natural que um ser vivo
pereça. A incrível
hydra, que é
considerada imortal,
demonstra essa tese. Em
quatro anos, cada indivíduo
dessa espécie repõe seu corpo
inteiro cerca de sessenta
vezes.
A
ideia fundamental dos
combatedores do
envelhecimento é tratá-lo
cientificamente como uma
doença, que talvez possa ser
curada.
O
biólogo Robin Holliday, que
faleceu no início de 2014,
não achava essa perspectiva
razoável. Para ele, existem
tantas coisas simultâneas que
causam o envelhecimento que
essa batalha seria como a
luta de Hércules contra a
Hidra (falando agora da
criatura mitológica): são
cabeças demais para matar, e
nascem duas para cada uma que
se corta.
Mas
nem sempre objeções teóricas
permanecem vivas na prática.
Os pesquisadores da
imortalidade descobriram que
o envelhecimento é causado,
em essência, pelo grande
acúmulo de lixo dentro das
células, material que vai se
juntando com o passar dos
anos e prejudicando o
funcionamento normal do
organismo. Aos 50 anos de
idade, por exemplo, 20% de
determinadas células oculares
já são lixo.
Essa
limpeza celular é o principal
foco atual dos pesquisadores
que não desejam morrer.
Ferramentas de clonagem e até
o uso de nanorobôs estão
sendo experimentados para
essa tarefa. Serão
bem-sucedidos?
Aubrey
de Grey espera, pelo menos,
que as pesquisas nos tragam
algum saldo de vida. Não é
necessário criar, de uma vez,
a pílula dos mil anos: se
cada 10 anos de pesquisa nos
concederem pelo menos 11 a
mais de vida saudável,
entraremos num círculo
virtuoso que poderá nos levar
a um tempo indeterminado de
existência.
Esse
assunto fascinante me
estimulou a escrever meu
primeiro romance, A vida
longa dos vermes, que imagina
como um cientista brasileiro
dos tempos atuais realizou
uma grande descoberta contra
o envelhecimento e relata os
fatos inacreditáveis que se
sucederam.
Esse
romance está passando por uma
etapa de financiamento
coletivo no site catarse.me.
É uma tendência importante,
que provê mais independência
e mais retorno para os
autores!
Quem
decide o que vai acontecer no
mercado é você, leitor. O
romance será
lançado?
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