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FICÇÃO
A professora
Dona Olinda entrou para nossa
última aula da manhã e não
fez nenhum gesto para que as
conversas animadas se
interrompessem. O Vinícius
ainda estava de pé quase do
meu lado, e só se abancou
depressa na carteira quando a
Edilene o advertiu com um
cutucão.
As
três alunas de Sertãozinho, que
se sentavam sérias mais à
frente, puseram-se a copiar os
rabiscos que Dona Olinda
começou a arrastar calada na
lousa verde. O Marcelo deu uma
risada alta lá no fundo, mas
ninguém prestou a atenção.
Quase todos
falavam.
Tomei algumas notas enquanto
escutava a Edilene, com a
boca pertinho de meu ouvido,
declarar sua contrariedade
sobre algum evento que havia
presenciado no recreio. Não
compreendi bem. Tínhamos
quinze anos.
A professora voltou-se para
nós e começou a explicação
com uma voz mecânica, mas as
primeiras frases foram muito
diretas e eu balancei o
pescoço escrevendo no caderno
o que pensei ter entendido. O
burburinho continuava. Meus
colegas não estavam
interessados na aula de
geografia.
Foi então que dona Olinda
nasceu.
Sua gestação começou quando
ela diminuiu um pouco a voz e
deixou os ensinamentos soarem
cada vez mais obscuros,
distantes. A Rita de
Sertãozinho largou a caneta,
franziu a sobrancelha e teve
um tique rápido voltado à
classe. Pensei que ela se
zangaria com o Rafael,
falante demais a seu lado,
mas ele era muito
bonito.
A gente podia pensar que a
Dona Olinda pisaria firme
contra todos os adversários,
ou então que a desordem
humanamente se abrandasse
diante da debilidade da jovem
mulher que tentava ensinar.
Mas nada disso
ocorreu.
Ela já falava tão baixo que
as próprias meninas da frente
desistiram. Começaram a
conversar entre elas, com
sussurros que eu não podia
captar.
Dona Olinda falava baixo, mas
não falava mal. Não falava
pouco nem falava
inocentemente. Ela começou a
sorrir olhando para a classe,
e seus lábios se mexiam
mastigando as palavras que
depois pararam de soar
completamente.
O giz correu pela lousa
criando o desenho de países
estranhos. A costa do Brasil
virou uma península
imaginária, caravelas
enfrentavam ondas
gigantescas, monstros saíam
do oceano, peixes imensos de
olhos esbugalhados eram
rasgados pelo tridente de
Netuno em sua
ira.
No final, sua boca nem se
movia mais. Somente os braços
se agitavam. Os desenhos
rápidos contavam outra
história do mundo, correta e
absurda, e o barulho de fundo
que a sala ainda fazia era
como a estática do Big Bang,
aquela radiação cósmica que
não traz nenhum significado e
apenas revela como surgiram
trilhões de
estrelas.
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