Carina
está viva é o segundo texto de Paulo Santoro, que estreou na dramaturgia em
2004 com O canto de Gregório, peça dirigida por Antunes Filho, que lhe valeu
indicação ao 17.o Prêmio Shell de Teatro, como melhor autor.
O diretor Ernani Sanchez coordena o grupo A Liga Carrossel de Memórias, com o
qual dirigiu Artaud Caligari ou Uma Sinfonia Sinestésica em Preto e
Branco,
de autoria própria, em 2006.
A jovem atriz Michelle Ferreira, formada pela EAD, dirige o Núcleo 53 de
teatro e é roteirista do filme Tardes livres (em finalização), dirigido por
Renato Chiappetta. Faz seu primeiro monólogo no papel de Carina.
Mulher inteligente e independente, Carina é uma anfitriã incomum: informa
aos presentes, com suavidade e sem nenhum desespero, que tomou a decisão de
se matar.
A estranha alegria com que expressa essa idéia é reforçada pelo naturalismo
da proposta cênica: os espectadores são visitantes de Carina, participando
da intimidade de seu chá e de seus álbuns pessoais. Ela não está lá
apenas para ser observada. Narra suas histórias como se trocasse idéias,
como se tudo fizesse parte de sua vida e da de seus convidados. Não há
distanciamento, há cumplicidade.
Desde maio deste ano, o autor assina, como se fosse a protagonista, um blog na
internet*. “Eu estou viva. Ainda” é a primeira mensagem desse espaço em
que expõe seus pensamentos e responde aos internautas que ali deixam seus
comentários.
*http://carinaviva.blogspot.com
Trechos
Então
comecei a ficar confusa. A gente devia se preocupar em viver. Viver e só.
Vocês sabem disso. O dono do supermercado, o fiscal de imposto de renda -
eles não estão nem aí com a vida eterna. Tem gente que, de tanta idéia na
cabeça, nem se lembra de comer. Um absurdo. Mas, queridos, eu preciso dessas
idéias na cabeça para formar a história completa. Antes eu não acreditava
em nada, eu achava que só se vive uma vez, que somos mortais, mortais para
sempre. Então, quando o Alan tentou me convencer de que temos um espírito
imortal, eu de repente fiquei abalada. Não é engraçado? Eu era tranqüila
antes, e, quando eu percebi que podia ser eterna, fiquei assustada. Eu não
queria mais perder essa verdade.
Queria que meu suicídio tivesse um caráter pessoal, por isso estudei os
relatos sociológicos, para que meu suicídio fosse uma aberração na
sociedade, uma exceção à regra. Pesquisei tão bem, que acabei descobrindo
que muitas pessoas já tinham se suicidado com essa mesma intenção. Por
isso, apesar de elas terem conseguido se matar de formas completamente
inusitadas, acabaram sendo catalogadas no bloco das pessoas que não queriam
ser catalogadas em nenhum bloco.
Um modo de a pessoa se matar, entre tantos outros que existem, é ela se jogar
diante de um trem em movimento. Mas eu imagino uma pessoa que, em vez de se
jogar, se senta no trilho e espera, enquanto vê bem ao longe o trem se
aproximando.